
Quer com os meus pais quer com o meu avô, aprendi grandes princípios e aprendi a fidelidade aos princípios, aprendi esse modo de se estar que é o de se fazer aquilo que em consciência se considera que é correcto, nem que chovam canivetes. O de nos batermos contra o que consideramos que é injusto e errado.
Há um episódio que nunca esqueço, que se passou com a minha mãe, quando o meu tio estava preso. Ele era o capitão Pestana do assalto ao Quartel de Beja... foi preso, levado para a PIDE, para a rua António Maria Cardoso, sujeito à tortura do sono, esteve encarcerado nos curros da Prisão do Aljube, onde o preso não conseguia sequer pôr-se de pé. A cela era um verdadeiro curro e esteve oito dias em tortura do sono… E quando ao fim de um mês e tal foram finalmente permitidas as visitas, a minha mãe tomou a decisão – que aliás gerou alguma controvérsia na família - de me levar também. Tinha 9 anos de idade.
A prisão do Aljube era uma prisão lúgubre, de paredes grossíssimas, umas luzes muito débeis lá no alto do tecto, um pé direito muito elevado. Grades por todos os lados. O preso vinha, era colocado num local onde tinha grades por trás e grades pela frente, um intervalo onde estava um PIDE a escutar a conversa, mais uma fiada de grades, os familiares, mais grades por detrás de nós.
Quando o meu tio entrou, não o reconheci. Estava completamente desfigurado, não por ter sido espancado, mas porque a tortura do sono o tinha desfigurado por completo. E só quando ele começou a falar lhe reconheci a voz. Ao ver o meu tio naquele estado, comecei a choramingar… a minha mãe agarrou-me no braço, apontou o PIDE e disse-me “em frente de gente desta, não se chora”.
